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Trilogia Chile: como ver uma trilogia histórica sem confundir continuidade nacional com uma só história

A chamada Trilogia Chile, de Patricio Guzmán, reúne Nostalgia da Luz, O Botão de Pérola e A Cordilheira dos Sonhos. Convém vê-la nessa ordem, mas não como uma narrativa linear nem como uma explicação total do Chile: é uma série construída gradualmente, em que paisagem, voz em primeira pessoa, testemunhos e imagens de arquivo mudam de função a cada filme.

Por Redação MovieResort18 setembro 2026Inclui a premissa
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Delimitar o objeto: uma trilogia documentada, mas formada no percurso

A composição deve ser definida antes de começar: Nostalgia da Luz, O Botão de Pérola e A Cordilheira dos Sonhos. Instituições de programação, distribuidores e estudos académicos coincidem nesta série; a confirmação mais forte, porém, vem do próprio cineasta e do dossiê do terceiro filme, que o apresenta expressamente como conclusão dos dois anteriores.

Não convém projetar automaticamente essa conclusão sobre 2010. Nostalgia da Luz funciona plenamente por si só. Numa conversa publicada em torno de O Botão de Pérola, Guzmán falava de um díptico entre o deserto do norte e o extremo sul aquático, e apenas imaginava um possível filme futuro sobre a cordilheira. «Trilogia» nomeia, portanto, tanto uma continuidade autoral real quanto uma maneira retrospectiva de ler um processo criativo que foi sendo definido. Não se localizou uma fonte suficientemente exaustiva que permita atribuir com rigor o primeiro uso absoluto do rótulo; pode-se, contudo, documentar que ele já circulava na apresentação jornalística de O Botão de Pérola em 2015 e que foi consolidado pelo próprio Guzmán e pelos seus materiais de produção em 2019.

A conclusão crítica é simples: não se deve negar a trilogia, mas evitar convertê-la num desenho geométrico demasiado perfeito. A ordem norte-sul-cordilheira é útil, mas não prova que cada ligação formal ou histórica estivesse decidida desde a primeira filmagem.

Antes da maratona: comparar versões identificadas, não títulos abstratos

Para a análise, use edições integrais em espanhol e anote duração, suporte e legendas. As fichas de produção estabelecem uma referência prática: 90 minutos para Nostalgia da Luz, 82 para O Botão de Pérola e 85 para A Cordilheira dos Sonhos. São 257 minutos de filmes, sem contar pausas ou discussão; uma sessão razoável requer dois dias ou um dia longo com intervalos entre as obras.

As legendas não são um detalhe neutro. A voz de Guzmán, as entrevistas e as palavras que designam lugares, povos ou instituições participam da arquitetura de cada filme. Se o grupo vir uma cópia legendada, deve registar o idioma das legendas, o crédito de tradução quando constar e qualquer desencontro percetível entre voz, texto e nomes próprios. Nos materiais revistos, não foram encontradas provas suficientes para recomendar um restauro ou uma remontagem específica como versão comparativa canónica dos três filmes. Assim, a formulação responsável não é prometer uma «edição definitiva», mas identificar a cópia vista e não confundir diferenças de transferência, legendagem ou duração comercial com decisões originais de montagem.

A continuidade técnica existe, mas não é uniforme. Katell Djian assina a fotografia de Nostalgia da Luz e de O Botão de Pérola; Emmanuelle Joly participa na montagem dos três, embora o primeiro filme credite também Ewa Lankiewicz e o próprio Guzmán. O terceiro incorpora de forma especialmente visível as filmagens de Pablo Salas. É preferível falar de uma rede de colaboradores parcialmente estável, e não de uma fatura idêntica.

Uma folha de visionamento: quatro colunas e uma pergunta incómoda

Prepare uma folha para cada filme com quatro colunas: «material», «quem fala», «que tempo organiza» e «o que fica de fora». Acrescente uma quinta, mais incómoda: «quando uma associação poética se apresenta como uma relação histórica?». Ela não serve para desautorizar o cinema-ensaio; serve para observar como ele trabalha.

Em Nostalgia da Luz, anote separadamente as imagens do deserto de Atacama, a investigação astronómica, os vestígios arqueológicos e os testemunhos ligados a pessoas desaparecidas. Pergunte: o deserto é cenário, evidência material, arquivo natural ou ponte metafórica entre temporalidades? O que muda quando o filme passa da imensidão cósmica para uma busca localizada de restos?

Em O Botão de Pérola, distinga fotografias históricas, relatos de povos indígenas austrais, paisagens marítimas, vozes contemporâneas e referências à repressão ditatorial. O filme articula esses materiais pela água e por um motivo material concreto. A questão não é se a analogia «resume» séculos de história, mas o que ilumina e que risco corre ao reunir colonialismo, extermínio indígena e terrorismo de Estado sob uma mesma figura líquida.

Em A Cordilheira dos Sonhos, separe imagens de paisagem, memórias pessoais de Guzmán, intervenções de artistas e historiadores e o arquivo audiovisual de Pablo Salas. Aqui importa observar que o arquivo não opera apenas como ilustração do passado: as filmagens de Salas introduzem outra prática documental, feita a partir do Chile e ao longo de décadas. Pergunte o que acontece à autoridade da voz quando ela se confronta com um cineasta-arquivista que permaneceu a registar ruas, protestos e violência.

Ver em relação: três geografias não equivalem a três provas

A progressão espacial — Atacama, águas austrais, Andes próximos de Santiago — organiza a maratona, mas não produz uma cronologia transparente. Nostalgia da Luz sobrepõe escalas cósmicas, geológicas e biográficas. O Botão de Pérola entrelaça tempos coloniais, indígenas e ditatoriais. A Cordilheira dos Sonhos aproxima-se mais explicitamente do presente político, da subjetividade do realizador e das imagens de mobilização preservadas por Salas.

A voz em primeira pessoa é um dos fios mais nítidos. Não é a voz administrativa de um processo, nem uma narração omnisciente que encerre o sentido dos testemunhos: propõe associações, recordações e hipóteses sensíveis. Isso exige uma escuta dupla. Primeiro, atender à sua força formal: ritmo, pausas, retorno de motivos e modo de unir escalas. Depois, distinguir a perspetiva subjetiva de uma verificação historiográfica. Uma voz poética pode abrir um problema de memória sem substituir os arquivos judiciais, as investigações de direitos humanos ou a historiografia dos povos mencionados.

Também muda o estatuto da paisagem. No primeiro filme, a aridez conserva e expõe; no segundo, a água liga, oculta e transporta; no terceiro, a cordilheira torna-se uma presença monumental e introspetiva. São operações cinematográficas distintas, não meras etapas de uma única alegoria nacional.

Ordem recomendada: da descoberta à revisão

A ordem aconselhada é a de estreia: Nostalgia da Luz, O Botão de Pérola e A Cordilheira dos Sonhos. Não porque o terceiro «resolva» os anteriores, mas porque permite perceber como a ideia de série se forma diante do espectador. Começa-se por uma obra que constrói uma relação entre ciência, deserto e desaparecimento; continua-se com uma expansão para a água, a Patagónia e uma genealogia histórica mais ampla; termina-se com um filme que regressa a Santiago, à cordilheira, ao próprio Guzmán e ao arquivo sustentado por Pablo Salas.

Entre cada projeção, não debatam ainda se o filme é «verdadeiro» ou «poético». Façam três perguntas de precisão: que fontes vemos ou ouvimos realmente? Que vínculo estabelece a montagem entre elas? Que informação externa precisaríamos consultar antes de transformar esse vínculo numa afirmação histórica geral? No fim, comparem as respostas. A trilogia revelar-se-á então não como uma lição compacta sobre o Chile, mas como três ensaios relacionados que disputam o acesso a uma memória ferida a partir de materiais e distâncias diferentes.

É isso que se ganha ao vê-los juntos: torna-se visível a transformação de um projeto e de um olhar. O que se perde se forem reduzidos a uma única tese é precisamente a fricção entre arquivo, testemunho, território, metáfora e presente que mantém vivos os três filmes.

Fontes e filmografia consultadas

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